Psicologia - Crença ou Ciência ?

Antes da opção pela Gestalt-Terapia, outras abordagens clínicas atraíram minha atenção: análise transacional, hipnoterapia, psicanálise, terapia estratégica e terapia reichiana. A todas elas dediquei algum tempo de estudo, seja em cursos livres, estágios, grupos de estudo ou outras formas de aprofundamento para além do discutido na graduação acadêmica formal. O contato com essa diversidade de linhas, todas aceitas no meio acadêmico, e as discrepâncias entre elas me causaram surpresa, especialmente pelos reflexos que originavam nas práticas terapêuticas. As diferenças são tantas que algumas linhas apontam como danosos os procedimentos que outras adotam como técnica. Para citar um exemplo próximo, nossa atuação como Gestalt-Terapeutas é considerada impeditiva à realização de uma boa Psicanálise.
Psicologia é a minha segunda graduação profissional, sendo a primeira em uma área exata e tecnológica, Engenharia Eletrônica. Talvez por isso essa convivência acadêmica de técnicas "curativas" tão opostas tenha sido sempre fonte de incômodo. Assim como a insistência de alguns acadêmicos em ignorar as observações realizadas por outras linhas, ironicamente repetindo o procedimento de Freud, que com a sua intransigência em aceitar opiniões diferentes foi o grande incentivador da diversidade das linhas clínicas.
Essa posição contrasta com a visão que eu tinha e tenho de ciência. Ciência está associada à criação de modelos cognitivos, teorias, que permitem ao observador predeterminar a relação entre objetos. É uma redução da realidade, que possibilita ao observador redistribuir sua atenção perante a observação de um fenômeno. À medida que determinadas relações são previsíveis e conhecidas a atenção pode se voltar para relações mais sutis. As teorias são então modelos cognitivos da realidade, destinados à permanente modificação. São sabidamente falhos, mas aceitos porque dão conta da maioria dos fenômenos em uma determinada amostra. A nenhum pesquisador das áreas exatas ocorreria a idéia de ignorar um fato que não se enquadre em sua teoria, e justamente nesses pontos é que se dá o trabalho de pesquisa.
Psicologia não foge a este modelo: pensemos nos fundadores das diferentes linhas teóricas, eles elaboraram suas teorias através da observação das relações estabelecidas com e por seus clientes. Os sucessos e insucessos de suas intervenções estabeleceram um campo funcional onde determinadas relações passaram a ser esperadas, sua persistência estabeleceu um contorno que os fez enunciá-las como fundamentos teóricos, que ganham autonomia. Passam à categoria de conceitos que passamos a utilizar.
Nossa profissão, no entanto, apresenta uma característica especial. O seu objeto de estudo é dotado de vontade, e, se o cliente não responde ou abandona o tratamento, resta ao psicoterapêuta o engano de afirmar que o cliente não estava pronto para o tratamento. Gradualmente seu campo de observação se restringe àqueles que ratificam seus fundamentos teóricos. A conseqüência final é a generalização de conceitos particulares para todo o universo humano. Enganos desse tipo foram cometidas por todos os grandes teóricos da psicologia, que tentaram abranger a diversidade humana em um conjunto finito de normas e regras.
Além da generalização cometida pelos grandes desbravadores da psicologia, temos um problema ainda maior: a introjeção de seus conceitos por seus seguidores. Devido à ansiedade provocada pela rejeição do meio acadêmico-profissional, a maioria dos discípulos evita o questionamento das bases teóricas, e as adotam como crença. Estas crenças são tão arraigadas que vários profissionais preferem dissociar sua prática clínica dos fundamentos teóricos, declarando-se não ortodoxos, em vez de questionar estes fundamentos. Esse afrouxamento da relação prática/teoria reflete em um descompromisso profissional terapeuta-cliente, e, uma vez que a psicologia relaxa com esse compromisso, proliferam-se as práticas psicoterapêuticas realizadas por profissionais de outras áreas, ou mesmo por práticos formados em cursos de fim de semana.

Gestalt-Terapeutas que somos, temos de ser fiéis a escola filosófica fenomenológica que abraçamos, e entender que qualquer teoria é uma construção racional prévia, afastada do fato. É um reflexo tosco da realidade do encontro que irá ocorrer com cada um com quem tivermos contato. Metaforicamente quem gostaria de embarcar em uma condução em que o condutor, em vez de olhar a estrada, preferisse dirigir olhando apenas para um mapa à sua frente, da mesma forma, que desconforto resulta em dirigir por um terreno completamente desconhecido, sem imaginar qual a direção pode levar a uma estância agradável ou a uma intrincada armadilha.
Todo o estudo, todo o aprofundamento em psicologia é importante, pois familiariza o terapêuta com as possibilidades do humano, assim como o conhecimento, pelo terapêuta, de diferentes intervenções técnicas instrumenta-o, aumentando sua possibilidade de colocar à disposição do cliente a intervenção necessária no momento correto.
A fenomenologia propõe uma nova interação com a teoria, difícil, à medida que nos propõe sua subordinação ao fenômeno, o abandono do falácia científica da previsibilidade resulante do conhecimento. As teorias, flexibilizadas, passam a ser facilitadoras do contato, instrumentos de redução da nossa ansiedade como cientista/terapeuta frente ao caótico acontecer que se lhe apresenta. Cada um dos grandes teóricos recolheu observações preciosas em suas experiências, podemos e devemos lê-los todos, e, criticamente, verificar quais foram os fatores curativos envolvidos naquelas intervenções, mas cuidando da ilusão que iremos encontar sua perfeita repetição em nossa prática.
Podemos pensar na questão da fundamentaçào teórica a partir do que diz Goodman sobre a consciência: a consciência, para ele, comparece à medida que a totalidade organísmica não tem condições de dar uma boa forma ao campo. O fenômeno não forma uma figura suficientemente clara para definir o ajustamento. Por exemplo, você pode ler esse artigo enquanto viaja, sem precisar deliberar sobre qual é o momento mais adequado para afastar os olhos do texto e verificar se já está chegando ao destino. As duas necessidades estão no campo e a forma de atendê-las também, elas irão se alternar naturalmente, sem que a consciência precise comparecer. Se, em algum instante o campo se altera, por exemplo: o parágrafo for mais difícil, ou se o itinerário for alterado, a consciência comparece, muitas vezes utilizando até o verbal para organizar a percepção (Vigotsky) - O que aconteceu ? para onde ele vai, ou o que ele quiz dizer ?
Infelizmente para todos teóricos, o ser humano é muito mais complexo que o itinerário de um ônibus, ou o que está escrito neste parágrafo, cada ser humano é um universo novo, diferente. Precisamos nos afastar do contato para compreende-lo, oscilamos entre estar associados, sentindo o fenômeno, ou, no dizer de Buber, de uma relação "eu-tu", para uma posição dissociada, "eu-isso", onde observado de longe o fenômeno pode ser compreendido pela consciência.
Comparando com o desenvolvimento efetuado por Ginger nos conceitos de Goodman sobre o Self como um processo, uma função organísmica, que subdivide esquematicamente em três outras: a função "id", responsável pelas sensações e ações automáticas do organismo, a função "ego", responsável pela decisão e racionalidade, e a função "personalidade" responsável pela memoria das situações e das emoções a elas associadas .
O terapeuta precisa ter claro que não é o seu entendimento do campo que origina a queixa do cliente, nem mesmo o entendimento dela por ele mesmo que é a "cura" para ele. A percepção da configuração do campo que emerge nos insights do cliente durante a terapia são função egóica, que irá prover a moblização de energia, que lhe dará base, força e possibilidade de se arriscar ao contato por novas soluções.
As novas soluções terão de ser arriscadas numa relação eu-tu, e é a relação cliente-terapeuta que se presta de campo experiencial, em que o cliente atualiza situações arcaicas e verifica a intensidade das emoções que surgem no intra-subjetivo e no inter-subjetivo. A presença emocional do terapêuta ratifica a experiência do cliente. Um terapeuta que omita suas emoções só conseguirá desestruturar a função "Ego" do cliente que se dá conta da omissão e ratifica a impossibilidade daquela experiência com "pessoas" reais.
Sua função personalidade se atualiza, as expectativas catastróficas diminuem e assim ele pode retomar o processo de crescimento interrompido pela cristalização da interrupção de contato. Ou seja ele pode voltar a ser sua própria medida, realizando bons contatos e boas retiradas. Desta forma o setting terapêutico passa a ser o local de encontro saudável onde o cliente vai poder arriscar suas mudanças e perceber o quanto elas são mobilizadoras, e a partir do momento em que ele arrisca, que ele pode se submeter à esta situação de ansiedade provocadas pelas suas próprias situações inacabadas que têm expectativas aterrorizantes para ele é que ele vai poder arriscar essas mesmas situações na vida, e é a vida que importa.
Se o terapeuta não estiver presente com as suas reações, com as suas observações sobre aquilo que é expresso pelo cliente como um todo, no seu corporal, no verbal e emocional, que retorno ele poderá ter para experimentar essas novas situações. O terapeuta portanto será tão melhor quanto mais pessoa ele for perante o cliente. Quanto mais ele puder devolver a ele aquilo que observa, que percebe nele, e verificar com o cliente o quanto isso esta sendo instrumento de sua expressão de vida, ou o quanto ele está utilizando essa estratégia como uma proteção contra uma ansiedade crescente. Tolerar esta ansiedade é um objetivo da terapia, assim como o é tolerar o desapontamento que surge a medida que ele percebe a disfuncionalidade de suas velhas estratégias.
Desprovido do ferramental usual para enfrentar a vida o cliente se sente perdido, e é a partir desse sentimento, do vazio fértil, é que ele pode criar suas novas estratégias. Essa não é uma ação fácil, o meio reage a essas alterações, as pessoas envolvidas nas relações alteradas pelo cliente tendem a reagir buscando a manutenção da homeostase. Novamente é a presença humana do terapeuta, reconhecendo o esforço e as conquistas do cliente que garante a persistência dele em suas mudanças. Nesta muda aqueles as relações buscando restaurar a homeostase.
O cliente oscila entre o risco de perder o conrole e a possibilidade de crescer. Cabe ao terapêuta reforçar o Ego para controlar suas emoções, não ser submtido por elas, ao mesmo tempo em que se permite vivenciá-las no que têm de possibilidade de mudança.
A saúde está então associada ao eterno pulsar entre o mobilizar de recursos internos pelo entendimento, pela compreensão e o vivenciar o novo. Não se pode cair no exagero de pensar que só o emocional é sábio para o cliente. Os mecanismos de interrupção de contato, quando são ferramentas organísmicas para dimensionar a intensidade do contato prazeroza para ele, estão funcionando saudavelmente.
A oscilação não pode ser vivenciada como uma luta, mas como movimentos complementares, que se integram e formam uma totalidade que é a vida.
O cliente é o maior conhecedor de si mesmo, se ignoramos as soluções criativas dele oriundas, sua sensação de saúde, e as substituimos pelas escolhas pré-definidas por uma linha teórica, estaremos trabahando pela constução de uma nova neurose que substitua a antiga.

Pierre Ferraz
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