Os Limites da Psicofarmacologia e a Importância de sua Associação com a Psicoterapia

Quando se aborda psicopatologia, uma questão imediatamente se impõe: patologia é "o estudo de qualquer desvio anatômico e/ou fisiológico, em relação à normalidade, que constitua uma doença ou caracterize determinada doença", mas para psicopatologia a definição que encontramos passa a ser "ramo da medicina que tem como objetivo fornecer a referência, a classificação e a explicação para as modificações do modo de vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, que se desviam da norma e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de doenças mentais". Pelas acepções dos dois termos a diferença entre a normalidade do funcionamento físico e mental já é introduzida, já que na fisiologia corporal é possível a definição de padrões e medidas de funcionamento, mas quando tratamos do psiquismo os padrões passam a ser comportamentais, e, conseqüentemente, socialmente arbitradas.
Isso levou a Thomas Szasz, professor emérito de psiquiatria na State University of New York Health Science a escrever em Janeiro de 2000 no USA Today (Revista):

"O conceito psiquiátrico de doença repousa sobre uma radical alteração da definição médica. A mente não é um objeto material, daí que doente ela possa estar apenas num sentido metafórico.
A psicopatologia é diagnosticada pela descoberta de anormalidades comportamentais, e não pela descoberta de anormalidades físicas, corporais.
O diagnóstico de doenças corporais é o comando operativo que justifica que um médico admita em um hospital um paciente que assim o deseja. O diagnóstico de doença mental é o comando operativo que justifica a para um juiz encarcerar em um hospital de doenças mentais um criminoso sexual que cumpriu a sua sentença de prisão."

A própria mente só pode ser entendida como um epifenômeno, resultante da interação de milhares pe processos cerebrais, orquestrados por interligações neuronais, algumas delas, filogeneticamente herdadas, permitindo que o estudo da neuroanatomia e neurofisiologia cerebral defina ligações entre determinadas regiões e determinados processos mentais.
Entretanto, a maior parte das ligações não está geneticamente determinada, mas vão se formando no decorrer de nossa vida, orientadas pelos estímulos externos que recebemos e pela própria vivência subjetiva que produzimos, ou seja são ontogeneticamente determinadas. Características próprias e individuais que fazem aquele indivíduo se reconhecer e ser reconhecido.
Aquilo que percebemos como um psiquismo normal é o resultado de um processo ininterrupto e cumulativo, de assimilação de novas percepções e acomodação do sistema nervoso a essas novas experiências desde a formação da placa neural no ectoderma do embrião até o momento presente do indivíduo. Pensado desta forma o funcionamento psíquico se torna a emergência funcional de comportamentos capazes de equilibrar o funcionamento das estruturas neurofisiológicas com as experiências vividas no presente pelo indivíduo.
Também temos de considerar que o funcionamento do cérebro não é uniforme, nem os neurotransmissores possuem atuação específica em um determinado sintoma. Essa a diversidade e especialização do cerebro fazem com que a alteração sistêmica global produzida pela medicação, apesar de produzir os benefícios pela alteração do equilíbrio neuroquímico em uma determinada área cerebral, irá ao mesmo tempo desequilibrar outras áreas do cérebro ou mesmo alterar interações do sistema nervoso com músculos ou vísceras, produzindo, em maior ou menor intensidade efeitos colaterais, que freqüentemente são tão ou mais incômodos para o paciente que a própria doença.
De forma oposta, várias das "doenças mentais" não possuem base orgânica, pelo menos até o momento determinada. São causadas por produções subjetivas do próprio paciente. Fobias, neuroses, estresses pós-traumáticos e outras podem se dar em pessoas neurofisiologicamente sãs, mas que desenvolvem suas patologias após a vivência de determinadas situações. Além disso, é necessário pensar que a ontogênese de um determinado indivíduo se dá através da utilização de um determinado conjunto de mecanismos neurofisiológico. Ele descobre como aprender, se relacionar, amar e ser ele mesmo através desse mecanismo. Qualquer mau funcionamento dessas estruturas foi compensado e utilizado durante a formação da personalidade. Pode inclusive integrar as capacidades mais preciosas para aquele indivíduo. Aí nos deparamos com um problema: a "cura" pode resultar em prejuízos maiores que a "doença". Tomemos como exemplo o caso de John Nash, retratado no filme "Uma Mente Brilhante", onde ele, psicótico paranoide, opta pela não utilização dos antipsicóticos que manteriam sob controle seus delírios persecutórios, pelo fato de o incapacitarem para a realização de seu trabalho. Note-se que este trabalho o levou ao Prêmio Nobel de Economia em 1994. Também no personagem de ficção Mr. Jones, interpretado por Richard Gere no filme homônimo, em que um maníaco depressivo de quarenta anos que alterna frases de feliz euforia e de triste depressão recusa tratar-se, pois se prefere dessa forma.
Então como e quando medicar o paciente? Em que basear a hipótese do sintoma apresentado resultar de um desequilíbrio neurofisiológico ou se são formações psicológicas. A meu ver a referência a ser buscada é a incapacidade do paciente de se equilibrar de forma aceitável para ele mesmo. Ou seja, sempre que as estratégias terapêuticas relacionais se mostram ineficazes, em função da desconexão com a realidade ou de um sofrimento que exceda a capacidade de simbolização daquele indivíduo, a medicação deve ser ministrada de forma a possibilitar a atuação terapêutica.
Ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor, hipnóticos e tranqüilizantes devem ser adequadamente ministrados a pacientes que não apresentem melhora dos sintomas quando em processos psicoterápicos. Da mesma forma, pacientes que procuram uma abordagem medicamentosa devem ser encaminhados a processos terapêuticos concomitantes. Sob um outro enfoque, podemos pensar na produção do sintoma por duas vias:
A primeira é o sintoma como uma emersão psicológica produzida pelo psiquismo para prover sua equilibração. Nesse caso a medicação, e a supressão inicial do sintoma, resultará em um desequilíbrio ainda maior e a intensificação daquele sintoma, ou ainda o surgimento de nova sintomatologia equilibradora. Esse é o caso observado nas conversões somáticas e também a razão pela resistência de certos pacientes à medicação.
Por outro lado, o sintoma pode ser o resultado da incapacidade do psiquismo a se adaptar ao funcionamento neurofisiológico. Assim o uso de medicação permanente para reequilibração deste funcionamento pode ser necessária, acompanhada por um processo psicoterápico que monitore os sintomas nas diversas estâncias da vida do paciente, inclusive naquelas que ele não considera como indicadoras de patologia.
Finalmente, ressaltamos que qualquer procedimento terapêutico, seja médico ou psicológico, precisa manter o foco na preservação da capacidade de interrelação dele com o seu meio, físico, familiar e social. Talvez o único guia seguro para qualquer profissional que se proponha a "cuidar" de alguém.
As pesquisas mais recentes mostram que depressões, surtos psicóticos e ataques de pânico alteram a estrutura cerebral em termos químicos (neurotransmissão), microscópicos (neurônios, dendritos e axônios) e finalmente estruturais (volume de certas estruturas cerebrais). O tratamento precoce e o bloqueio de recaídas restaura as funções e estruturas ao estado normal. À medida que o psiquismo aprende a produzir sintomas, é cada vez mais fácil para ele produzi-los.
É preciso que deixemos os preconceitos de lado e ofereçamos tratamento adequado, psicoterápico e/ou psicofarmacológico, antes que o problema complique ou cronifique.
Referências:
http://www.psiqweb.med.br/farmaco/antipsicse.html
http://www.mentalhelp.com
http://www.santalucia.com.br/neurologia/depressao/default-p.htm
http://www.matematix.com.br/principal/showExemplar.asp?var_chavereg=32
http://www.mentalhelp.com/medicamento.htm
http://www.drauziovarella.com.br/artigos/cerebro_borboleta3.asp

Pierre Ferraz
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