Percepção e Terapia Familiar

Organismicamente falando estamos permanentemente mergulhados em uma infinidade de estímulos caóticos. Nossos sentidos estão permanentemente captando estímulos, sejam eles oriundos do ambiente externo ou do nosso "ambiente interno". A medida que foram filogeneticamente surgindo estruturas que possibilitaram maiores interações com este campo, surgiu a necessidade da seleção dos estímulos importantes para determinada relação e daqueles irrelevantes para ela. Esse conceito foi desenvolvido pelos teóricos da Psicologia da Gestalt e denominado de Figura e Fundo. O processo de emersão de determinada figura é justamente a seleção de sua fronteira, onde concentramos a atenção para apreender as relações que estão se dando, ao mesmo tempo em que ignoramos as relações externas a ela - que se tornam o fundo, bem como a suas relações internas, uma vez que a figura foi, nos processos saudáveis, temporariamente reificada. Ela deixa de pertencer ao mundo de relação e compõe um objeto cognitivo estável. O que podemos confirmar a partir das experiências associadas à boa-forma. A medida que definimos uma determinada figura é vista como um círculo, por exemplo, deixamos de verificar suas relações internas, que assumimos como aquelas da "boa-forma", independente de se confirmarem ou não. Nossa percepção é um fenômeno de fronteira.
Que fenômeno preside então a dominância de determinada figura. Suponho correto pretender que a estabilidade das relações de um determinado objeto determine a redução da intensidade de atenção voltada a elas, através de um processo de transformação em um objeto cognitivo cujas relações são pressupostas (num ponto de vista dialógico estabelecemos uma relação eu-isso com qualquer objeto estável - não sentimos necessidade de modificação das relações com aquele "objeto" já que ele é conhecido e estável). Já as relações constantemente alteráveis são apreendidas como processos e entendida como relações entre objetos estáveis.
Qualquer busca por mudança, e aí incluímos especialmente a procura por psicoterapia, é motivada por instabilidades tão grandes nos processos do cliente (seja ele individual, familiar ou institucional) que o obrigam a atualizar os objetos cognitivos até então estáveis. Essa mudança é desconfortável, o trás de volta a um mundo instável, demandando uma atenção demasiada para o estabelecimento da relação - não é outra a razão que leva a maioria dos clientes a solicitar ao terapeuta que "explique" o que está ocorrendo com ele - ou seja que estabeleça outro conjunto de objetos estáveis que lhe permita controlar suas relações com eles.
Família é uma de nossas reificações, um conjunto de relações com funções estabelecidas, impossíveis ao indivíduo isolado, como sobrevivência e reprodução, levou à formação de grupos onde essas relações mais amplas podem se dar. No mesmo processo perceptual, a repetição das relações definidas filogeneticamente (impotência das crianças, gestação nas mulheres) desenvolvidos historicamente levaram à paralisação dessas relações, criando os papeis de Pai, Mãe, Filho, Filha e Adolescente, e finalmente, quando e se a instabilidade dessas relações assim determinar, o de Adulto - aquele que se desliga do grupo original, levando com ele como herança, e utilizando-os como modelos, positivos ou negativos, seus introjetos. Ao receber um grupo familiar para terapia o terapeuta encontra-se frente a um dilema - para que possa estabelecer contato com cada um dos componentes do grupo ele deve compreender e trabalhar com esses introjetos, ao mesmo tempo em que deverá estar atento para não contaminar sua percepção dos processos internos, desconsiderados pelos próprios integrantes da família, que levaram à instabilidade das relações.
Finalmente, voltando à dialógica, não podemos nos perder num "furor curandis", tentando suprimir prematuramente a insatisfação que motivou a procura pela terapia, pois ela é a própria motivação para que cada um dos componentes da família se olhem, para que desconstruam os objetos cognitivos que tomaram o lugar das pessoas. Numa analogia, aquela familia-cliente endureceu suas fronteiras como a casca de uma árvore, e o sofrimento que a trás a terapia é a motivação para o nascimento daquele novo rebento, para a expansão de suas fronteiras um pouco mais além.

Pierre Ferraz
contato@penseemterapia.psc.br
Reprodução permitida, mediante citação da fonte