Psicanálise e Psicossomática

1. Introdução
Sempre que se escreve um texto se dialoga com um suposto leitor, nesse caso, o suposto leitor, ou pelo menos o leitor inicial é bem conhecido, ou seja o Professor Nahman Armony, Médico, Psiquiatra, Membro psicanalista da CPRJ e da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID) , Membro da International Federation of Psychoanalytic Societies, Doutor em Comunicação pela ECO da UFRJ, Professor do curso de pós-graduação lato-senso "Psicologia clínica e Psicossomática" da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, o que torna a tarefa pelo menos mais pesada, uma vez que o meu percurso como psicólogo me levou a adotar como linha clínica e teórica a Gestalt-Terapia.
A Gestalt-Terapia tem sua gestação a partir da publicação, em 1942, do livro "Ego, Fome e Agressão, Uma Revisão da Teoria e do Método de Freud" onde Frederick (Fritz) Perls já expressa sua preocupação com as relações estabelecidas pelo indivíduo para obter do mundo a satisfação de suas necessidades. E tem o final de sua gestação em 1951, com o lançamento por Perls, Paul Goodman e Ralph Hefferline do livro Gestalt-terapia onde os três dão forma ao corpo teórico desenvolvido pelo que ficou conhecido como o Grupo dos Nove.
Perls graduou-se em medicina em 1920, aos 27 anos, interessando-se por neuropsiquiatria. Tem seu primeiro contato com a filosofia através de Sigmund Friedlaender
Em 1926, aos 33 anos, Fritz é analisado por Karen Horney e se transfere para Frankfurt, por sugestão da psicanalista, para continuar sua formação psicanalítica. Ali, trabalha com mutilados da Primeira Guerra Mundial no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais, com Kurt Goldstein, neurologista e psiquiatria alemão que irá formular a Teoria Organísmica. Esta teoria já trás, em seu conceito de auto-atualização, a noção de equilíbrio dinâmico topográfica como a busca de equalização pelo organismo, entre tensão e relaxamento. As forças que atuam não podem ser consideradas como internas ou externas, mas sim como forças contextualizadas em um campo interacional.
A formação psicanalítica de Perls prossegue até 1932, entre Frankfurt, Viena e Berlim. Em 1928, é analisado por Reich, de quem assimila os ensinamentos sobre a "couraça caracterológica". Desde a ascensão de Hitler, em 1931, Fritz vinha trabalhando junto aos movimentos de resistência ao nazismo. Em abril de 1933, é obrigado a fugir para a Holanda, onde encontra o psicanalista Karl Landauer, continuando sua capacitação psicanalítica. Por indicação de Ernest Jones, muda-se para a África do Sul, onde funda o "Instituto Sul-Africano de Psicanálise", em 1935.
Em 1936 profere uma palestra sobre "resistências orais" no "Congresso Internacional de Psicanálise", na Tchecoslováquia, que é severamente criticada. O contato com Freud é breve e frio, e Reich mostra-se esquivo e mal-humorado. Perls a partir dessa época se afasta cada vez mais, da psicanálise. Apesar de já ter iniciado um movimento de flexibilização de seu estilo psicoterápico, tornando-o mais experiencial e aberto.
Assim, Fritz amplia o trabalho do "Congresso", inclui elementos úteis de sua prática com Reich e do pensamento existencial, e, em 1940, conclui o manuscrito de Ego, hunger and aggression, que, originalmente, tinha como subtítulo A revision of Freud's theory and method, o que demonstra que, apesar da posição revisionista, Perls ainda se mantinha inserto na perspectiva psicanalítica. O livro é publicado em 1942, em Durban (África do Sul); em 1947, na Inglaterra; e em 1969, nos EUA. A vinculação de Fritz à psicanálise, entretanto, durou pelo menos 15 anos, desde os anos 20.
Em 1951, com Paul Goodman, em co-autoria com Ralph Hefferline o livro "Gestalt Therapy - Excitement and Growth in Human Personality" no qual estão colocadas as bases da Gestalt Terapia.
A partir daí até a sua morte em 1970, Fritz Perls, sua esposa Lore e Paul Goodman, além de outros autores que paulatinamente foram se juntando a eles, consolidaram a Gestalt Terapia pautada em bases da Psicologia da Gestalt, Fenomenologia, Existencialismo, Teoria Organísmica de Goldstein, Teoria de Campo de Lewin, Holismo de Smuts, Psicodrama de Moreno, Reich, Buber e, por fim, a filosofia oriental.
Também eu realizei uma tragetória, ainda que com muito menor amplitude, semelhante. Tendo recebido a visão psicanalítica freudiana na graduação e buscado uma formação em Terapia Reichiana, rompi com a teoria psicanalítica especialmente pela sua base estruturalista. Concepções talvez erroneamente ministradas sobre a impossibilidade da modificação, através da clínica, de uma personalidades organizada como neurótica, psicótica ou perversa na infância, me fizeram questionar o modelo de homem que subjazia na teoria ensinada. O humanismo já existente em mim me conduziu a outros caminhos teóricos.
Infelizmente devo confessar que se dependesse da falta de exatidão com que os princípios da Gestalt Terapia foram passados na graduação, com certeza também não a teria adotado como base teórica. Felizmente uma boa formação clínica me salvou.
Qual não foi minha agradável surpresa ao entrar em contato com a produção dos Teóricos das Relações Objetais, especialmente com as teorizações de Winnicott, e descobrir que a Psicanálise, em sua produção posterior a Freud, havia produzido conteúdos muito próximas as da Gestalt.
Afinal, linhas teóricas são como as descrições da fábula dos cegos e do elefante, e de nada adianta discutirmos as diferenças entre uma palmeira, uma corda ou uma ventarola, todas são enfoques válidos de uma realidade maior. Serão nossas próprias experiências, valores e pensamentos que ditarão qual delas deixaremos que nos penetre. O que realmente importa é o que faremos desses conceitos a medida que estiverem assentados no nosso psiquismo.

2. Escolha do objeto - transtorno de pânico
Minha experiência clinica com pacientes psicossomáticos, assim entendidos pacientes que vieram a apresentar ganhos fisiológicas significativos ou remissão de quadros clínicos crônicos durante o processo terapêutico, normalmente se dá por duas vias: uma a indicação do pacientes por médicos não ligados ao enfoque psicossomático, e que sugerem a psicoterapia a seus pacientes por eles apresentarem durante a anamnese, ou em nas consultas subseqüentes, queixas psicológicas ou relacionais; e outra por pacientes que procuram psicoterapia e que possuem quadros clínicos crônicos.
Apesar de não constituírem, nos dois casa, parte da queixa inicial, tenho observado a remissão, após um tempo em terapia, de quadros como plaquetopenia grave, epilepsia, gastrites e outros quadros orgânicos.
Resolvi escolher um quadro fronteiriço entre o físico e o orgânico para abordar nesse trabalho, o Transtorno do Pânico. Vou me furtar a fazer uma descrição detalhada dos casos clínicos, mas me baseio em quatro casos. Dois deles se apresentaram à terapia com esta queixa autodiagnosticada, os outros dois trouxeram a questão como queixa secundária, priorizando, num caso questões profissionais e no outro questões familiares
Diferente de outros tipos de ansiedade, o Transtorno de Pânico caracteriza-se por crises súbitas constituídas de uma reação simpaticotônica de alerta desencadeada sem perigos ou outros fatores desencadeantes aparentes. Costuma evoluir para evitação das situações onde se desencadearam as crises, evoluindo mesmo até um quadro de agorafobia. Alguns autores, baseado na maior freqüência de ocorrência em algumas famílias, defende a existência de um fator genético, que estaria ligado ao desequilíbrio de serotonina e a noradrenalina afetando especialmente o funcionamento da amídala, estrutura cerebral desencadeadora da reação de alerta.
A reação de alerta em si, na inexistência de um disparador evidente, provocaria somente a sensação de ansiedade generalizada, no entanto, o que observo é que na presença das sensações ocasionadas pela resposta fisiológica tais como: vertigens, palpitações, distúrbios gastrintestinais, sudorese; o paciente apresenta uma forte resposta psíquica, normalmente acompanhada por pensamentos de morte. Essa resposta psíquica, acompanhada do aumento do ritmo respiratório, mantem e amplifica a reação de alerta e sua sintomatologia chegando a provocar a tetania muscular por alcalose sanguínea e perda de consciência.
Na sua maioria atinge jovens de 21 a 40 anos, extremamente produtivas a nível profissional, com carga excessiva de responsabilidades e afazeres, bastantes exigentes consigo mesmos, não convivem bem com erros ou imprevistos, têm tendência a se preocuparem excessivamente com problemas cotidianos, alto nível de criatividade, perfecionismo, excessiva necessidade de estar no controle e de aprovação, auto-expectativas extremamente altas, pensamento rígido, competente e confiável, repressão de alguns ou todos os sentimentos negativos, tendência a ignorar as necessidades físicas do corpo, entre outras.

3. Enfoque terapêutico
Em todos os casos obtive bons resultados abordando inicialmente o problema pela resignificação dos episódios de pânico. Inicialmente forneço informações ao paciente sobre a fisiologia da crise, enquadrando suas sensações em um esquema que ele possa entender, e fornecendo-lhe instruções claras e objetivas sobre os procedimentos a adotar durante um episódio. Esse enfoque devolve ao paciente o controle da Crise e, como será discutido mais adiante, permite que ele volte a sua onipotência mitigada.
Essa abordagem realizada logo nas primeiras sessões e funciona como fortalecedor do vínculo terapêutico. À medida que passa por Crises sem perder o controle reduz sua desconfiança no processo terapêutico e o paciente se permite abordar outros aspectos de sua vida que não somente o Transtorno de Pânico.
Somente a partir daí poderão emergir os conteúdos relacionados à sua ansiedade generalizada. Ainda partindo dos casos observados, em todos os casos pude observar a existência de padrões rígidos em um dos componentes do casal parental, e a flexibilização das regras pelo outro componente parental, não com o enfrentamento do parceiro rígido, mas na forma da cumplicidade na violação das regras por parte do paciente, especialmente no período da adolescência. Em dois casos havia a ocorrência de episódios de pânico no parceiro rígido do casal parental. Paradoxalmente, todos eles estabelecerem uma estratégia de fazer, de realizações e sucessos acadêmicos e profissionais, como forma falha de obtenção de aprovação daquele pai/mãe rígido, de certa forma desqualificando o afeto obtido da outra parte.
Em dois dos casos, os casais parentais eram divorcidos, e a rigidez sentida era agravada pela falta de intimidade com o pai distante.
Três dos quatro casos apresentavam relações afetivas conturbadas, marcadas por muitas cenas de violência verbal e ciúmes, e o quarto não conseguia estabelecer relações afetivas satisfatórias, apesar de apresentar muitos relacionamentos momentâneos, com a duração de horas, ou no máximo dias.
Os processos evoluíram apresentando uma redução da sensação de não conformidade e aumento de auto-estima, refletido na reformulação dos relacionamentos afetivos profissionais e familiares, sendo dois desses casos já tendo evoluído para alta e dois ainda em terapia

4. Releitura dos casos pela abordagem psicanalítica
Bom, vamos então a parte mais árdua deste trabalho. Buscaremos agora fazer uma releitura dos casos abordados por meio do referencial teórico de Winnicott, especialmente no tocante as questões de dependência absoluta e relativa enquadrando-os no referencial teórico que descreve o borderline brando proposto por Armony
Quando buscamos o referencial Winnicotiano para desenvolver o caso, chama a atenção, logo de início a estrutura familiar em que eles se desenvolvem. Todas as famílias apresentavam ambos os pais participando do mercado de trabalho e uma dissolução do modelo de cuidado considerado por aquele autor como necessário ao desenvolvimento neuroide da criança. A relação hierarquizada entre o casal parental inexiste, prevalecendo uma certa concorrência entre seus membros. O cuidado inicial em todos os casos foi pouco, uma vez que a mãe necessita retornar ao trabalho já no primeiro trimestre de vida do bebê. Em todos os casos o cuidado foi relegado a empregadas que cumprem simultaneamente a função de babá. Também em todos ele nota-se uma desorientação do casal parental frente as mudanças morais e culturais que se deram nas cinco últimas décadas, especialmente por terem vivido sua própria juventude nos anos 60 ou 70, ou seja no período da contra-cultura. Essa desorientação se reflete em normas alternadamente rígidas e frouxas, especialmente nos aspectos relativos a cobrança de resultados intelectuais, acadêmicos e profissionais, e no tocante à sexualidade.

4.1. Dificuldades na transição da dependencia absoluta para relativa
Podemos teorizar, uma vez que os fatos estão disponíveis, que esta atmosfera se refletiu numa menor disponibilidade da mãe para o estado de psicose "normal" que acontece na "preocupação materna primária". Provavelmente divididas entre a disponibilidade para a relação com o filho e os cuidados objetivos com a sobrevivência econômica da família, não raro essa "desidentificação" provoca grandes sentimentos de culpa e ansiedades na mãe.
A tensão resultante da culpa/ansiedade da mãe e de sua necessidade de reassumir sua identidade social e profissional determina uma alternância entre fases de ausência da figura materna, substituída pela cuidadora, e, nos momentos em que está presente, um cuidado intrusivo e excessivo para o bebê. Nesse ambiente de alternância, em que é impossível ao bebê desenvolver a confiança no cuidado materno, podemos teoricamente supor, o bebê apresentaria dificuldades na transição da dependência absoluta para a dependência relativa.
A identidade primária do bebê estaria impregnada pela subjetividade ansiosa da mãe, e de fato a descrição da primeira infância dos clientes já é a de um bebê agitado Sob outro ponto de vista, nestes casos o bebê reagiu ativamente à intrusão, enraivecendo-se e revoltando-se. Esta premissa teórica confere com a dificuldade observada no estabelecimento, na vida adulta destes pacientes, da fusão necessária para a experiência do enamoramento. Este estado estaria dissociado, prevalecendo a simbiose observada nos relacionamentos afetivos violentos, marcados pela desconfiança e pela necessidade da expressão de individuação
A ausência de uma mãe suficientemente boa nesse período resulta, nas teorizações de Winnicott, numa uma dificuldade dessas pessoas em sentirem dentro de si a presença de uma base firme, de um eixo central. No pólo mais patológico da deficiência da identidade primária encontraríamos o autismo infantil, a confusão mental, a esquizofrenia hebefrênica, a esquizofrenia simples. Numa posição menos patológica ocorre uma identidade difusa, que apresentará problemas nas áreas das identificações e das identidades secundárias. Pode sentir-se não aceito, não reconhecido, não autorizado nas transições da fusão para a simbiose e para a individuação. Apresentam fala dispersa, ansiosa, e fragmentada, o desajeitamento corporal, exercem atividades múltiplas e dispersas e excessiva preocupação com a beleza. São pessoas que para se sentirem reais precisam muitas vezes de emoções fortíssimas, entre elas a emoção da violência/destruição. Todas estas conclusões teóricas se enquadram no quadro apresentado pelos estado em que os casos chegaram ao consultório, podemos enquadra-los, segundo Winnicott/Abram como borderlines e esquizóides.

4.2. Espaço potencial e espaço íntimo
Falemos então da formação do espaço potencial, teorizado por Winnicott. A medida que o bebê sai da dependência absoluta pelo repúdio do objeto como não-eu, o bebê sai de seu estado de onipotência absoluto, e estabelece, através da manipulação, ou seja, do erotismo muscular e o prazer de coordenação, uma nova relação com o objeto, um objeto que passa a ser, ao mesmo tempo, objetivamente percebido e subjetivamente concebido. Cria o espaço potencial que lhe dá suporte para sua onipotência, não mais absoluta, mas mitigada. O mundo interno é externalizado nesse terceiro espaço que não é nem o subjetivo nem o objetivo. É neste espaço que se darão as identificações secundárias, inclusive a identificação com seu próprio corpo, que é o primeiro significante a adquirir significado para ele.
A mãe suficientemente boa, nesse momento está liberada para recuperar sua individualidade, percebendo o filho como um outro, e se colocando em um estado de disponibilidade para a identificação, percebendo as necessidades de seu bebê e acompanhando seu ir e vir durante a consolidação da separação do mundo interno e externo, mediado pelo espaço potencial.
Esse espaço permitira a ocorrência dos fenômenos transicionais, e, me permito pensar, será o campo em que, durante toda a vida, se darão as catexias e descatexias de objetos que permitem o permanente devir do sujeito. Nele os "objetos transicionais" poderão ser apreendidos e abandonados sem a necessidade da repressão dos sentimentos, sem que tenham de ser esquecidos ou pranteados. Nosso ´permanente desenvolvimento se dá pela gradual perda de significado dos objetos, liberando o afeto para o reinvestimento em novos objetos. A maturidade se dá pela ampliação e pelo compartilhamento desse território intermediário entre a 'realidade psíquica interna' e 'o mundo externo, que será base da própria vida cultural do indivíduo onde se dá a superposição de fantasia e realidade.
Pensando nos conceitos de Kohut sobre o self, como estrutura resultante das interações com o ambiente psicológico que necessita de confirmação nos relacionamentos e de um modelo de idealização para seu desenvolvimento normal e que na sua insuficiência dará causa a busca desesperada por perfeição e admiração, ou a um elevado ideal de ego.
Podemos retomar os casos clínicos pensando que os aspectos perturbadores da ação ansiosa e rígida do casal parental levará à fragmentação do self em formação, impedindo o investimento em determinados objetos. Em especial a preocupação exagerada com a saúde do bebê por parte da mãe ansiosa impedirá o processo de investimento e gradual perda de significado do corpo pelo bebê. Assim será difícil para ele criar um estado de "silêncio dos órgãos" característico da percepção da saúde. As sensações emergentes do corpo não terão uma boa conexão entre sua representação internalizada e externalizada, e sintomas como hipocondria, poderiam ser entendidos como uma inabilidade em lidar com este silêncio, ou, em outro pólo, a dificuldade de escuta das respostas corporais características da reação de alerta que descrevemos como característica do episódio de pânico.
Incluímos aí um outro conceito de Winnicott. Falando do desenvolvimento neurótico, irá afirmar que quando temos a capacidade de se sentir culpados e de reparar a perda dos objetos transicionais, conseguimos chegar à fase depressiva e os afetos a correlatos àqueles objetos poderão ser reprimidos. No entanto podemos pensar que isso somente se dará em relações que exijam ordem, dever, organização, controle, disciplina, ou seja que priorizem a realidade, o espaço externo sobre o espaço interno. Este era o foco na era vitoriana, e o resultado era um ideal de homem educado, formal, correto, disciplinado, cumpridor de suas obrigações, honesto, íntegro, retilíneo em sua trajetória de vida, confiável, honrado. Um cavalheiro, um gentleman, dedicado à tarefa de crescer lenta e seguramente dentro da atividade e/ou empresa escolhida. As regras eram estritas e aquele que as seguia era valorizado e recompensado. Numa realidade rígida e valorada o complexo de Édipo se resolve satisfatoriamente o homem adquire um superego sólido que dificilmente se deixará modificar pelo ambiente. Provavelmente necessitando, como diz a citação de Freud de um processo posterior para "...empreender uma revisão dessas antigas repressões e a subseqüente correção do processo original de repressão, correção que põe fim à dominância do fator quantitativo"
No entanto o ambiente familiar dos pacientes em questão apresenta uma inconstância, a medida que um dos pares parentais é rígido e exigente e o outro condescendente, embora ambos ansiosos.
Nessa ausência de uma maternagem suficientemente boa para criar uma boa identificação secundária podemos pensar na impossibilidade de criação do espaço potencial, em uma dissociação entre subjetivo e objetivo que poderá mesmo, em casos mais graves levar a psicose. No entanto podemos pensar na criação de um equivalente ao espaço potencial, através da substituição da mãe pessoa pela mãe-cultura.
Duas possibilidades podem ser pensadas para estes pacientes: ou puderam alcançar o espaço potencial, ou criaram um espaço equivalente ao espaço potencial, chamado de espaço de intimidade, onde vige a criatividade primária. Suponho que os casos de Transtorno de Pânico se enquadrem na segunda hipótese, o que viria de encontro a materialidade com que os episódios é sentida. As sensações corporais e alterações vegetativas não são percebidas como originadas subjetivamente, mas sim como um algo material que acontece, o que é sentido e imaginado ganha contornos de realidade. Na impossibilidade de simbolização das sensações corporais elas são externalizadas como um fato concreto. Estes fatos são colocados em oposição ao vivido, e, suponho seja essa a razão dos pensamentos de morte e que acompanham os episódios. Ou seja, podemos aplicar o comentário de Winnicott que "o cerne do distúrbio do paciente é psicótico, mas onde o paciente está de posse de uma organização psiconeurótica suficiente para apresentar uma psiconeurose, ou um distúrbio psicossomático, quando a ansiedade central psicótica ameaça irromper de forma crua."

4.3. Borderliners ???
Penso que a proposição de Armony do conceito de borderline brando se enquadra nesses casos de síndrome de pânico, e possui uma grande semelhança com o perfil epidemiológico descrito anteriormente, conclusão que obviamente necessitaria de maior estudo e confirmação estatística.
Mas vejamos, para Armony, o borderline brando é alguém que uma insuficiência de identificações com a função-pai ou com a função-mãe. Apresenta as fronteiras de um eu ainda incompleto buscando encontrar figuras com as quais realizar as identificações que lhe faltou. Em outras palavras, as valências identificatórias não se contraem, mas permanecem buscando o preenchimento de suas necessidades desatendidas. Assim, conserva as características infantis e adolescentes: curiosidade, alegria, prazer, empatia, necessidade de identificação não apenas mental, mas principalmente psicossomática.
De certa forma, ele se afasta da realidade, porque não suportar a renúncia que ela exige, e realiza seus desejos eróticos e ambiciosos na vida de fantasia. No entanto sua necessidade de identificação não lhe permite permanecer psicoticamente na fantasia, e sua recriação mágica é conectada com o mundo circundante na forma de uma atividade criativa, o que lhe torna inovador, criativo, socialmente produtivo e dotado de um talento excepcional expresso através de força, energia, movimento, criatividade, singularidade, transformação e multiplicidade. Sua multiplicidade de interesses e ações e o seu intenso investimento nos objetos (apropriados em sua onipotência mitigada para o espaço potencial ou íntimo) socialmente reconhecidos, produz a sensibilidade, permeabilidade ao próprio inconsciente, ao do outro e à subjetividade circulante que Armony denomina "identificação dual-porosa" que lhe permite uma identificação contínua em devir com os acontecimentos, um regime de trocas fantasmáticas e afetivas contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo rodeante. Estabelece assim relacionamentos suficientemente bons com as pessoas e com o social, não através da culpa e reparação, mas através da recriação mágica desses objetos em uma fantasia não alheia à realidade.
Também quanto a seu mundo interno o borderline usufrui desta flexibilidade, terá um superego, lábil, influenciável que se deixa penetrar e influenciar e permite ao homem da pós-modernidade, sua habilidade em acompanhar as rápidas transformações tecnológicas e culturais.
Voltando as teorizações sobre os pacientes de pânico. De fato as descrições sobre ritmo, força, energia, sociabilidade, e multiplicidade de investimentos se encaixa perfeitamente. Entretanto duas característica ficam destoantes. Em todos os casos os pacientes apresentavam dificuldades com situações de avaliação de capacidade que não envolvesse competitividade agressiva, como por exemplo entrevistas de emprego ou mesmo em uma situação de "paquera". No tocante aos relacionamentos afetivos, todos os pacientes preferiam relacionamentos marcados pela violência verbal e/ou fisica. As histórias de início do relacionamento sempre incluíam alguma forma, ainda que socialmente aceita ou não, de intrusão (tomar o parceiro de outra pessoa, seduzir agressivamente alguém, ou mesmo, numa intrusão voltada para si mesmo não cuidar dos próprios limites quando o intuito era o de conseguir "conquistar o parceiro). Suponho que tais problemas devam-se à tentativa residual e permanente de investimento no pai rígido, ou melhor dizendo, na sua forma de aplicação da regra, violenta, inacessível a capacidade empática do filho. Praticamente em todos os casos ocorre uma desistência do afeto dos pais, mas uma desistência "investida", muito mais uma forma de comunicação (seja pela rebeldia, como pela frieza) que na verdade não permite o desligamento, mas sim o mantem.

4.4. Aspectos psicossomáticos do transtorno de pânico
Quando pensamos em psicologia clínica não há como não nos reportarmos às observações de sintomas físicos que chamaram a atenção de Freud e que deram abertura para suas descobertas. Com Charcot ele veio a ter contato com a remissão e a produção de sintomas físicos a partir das induções hipnóticas. Caberia então um questionamento, se esses sintomas são produzidos a partir de sugestões verbais, é provável que elas não estejam colocadas tão profundamente no inconsciente, mas sim em uma uma forma de comunicação.
Winnicott também prioriza o intersubjetivo, as relações objetais, como organizadoras do self, e encontramos atualmente o psiquiatra Christophe Dejours afirmando a primazia da intersubjetividade sobre a intrasubjetividade. O distúrbio somático então seria uma mensagem encaminhada a alguém.
Para Dejours, o adoecimento está determinado pelas falhas na cartografia do corpo erógeno. O corpo erógeno, tanto pulsional como uma unidade constituída historicamente no processo dialético que compõe a subjetividade a partir do brincar da criança, possuiria falhas. Justamente onde foi negada à criança a possibilidade da construção do objeto. Sensações originadas nessas falhas não poderiam ser dramatizadas e somente poderiam ser expressas pelo corpo. Dessa forma o evento se dá como expressão de uma tensão e tem o objetivo de comunicar algo que não possa ser dito a um outro, ainda que esse outro seja o próprio falso-self do paciente.
Voltando a nossos pacientes, todos eles se propunham a um ritmo frenético, a tentativa de acompanhar a aceleração crescente de nossa sociedade, se expondo a níveis crescentes de angústia, frustração e stress. Também apresentavam dificuldades de pensar, de elaborar e nas possibilidades de fazer ressignificações. Contrastando com o seu ritmo alucinante, o aspecto emocional apresenta-se paralisado. Debatem-se sem conseguir se libertar de situações amorosas e profissionais desagradáveis.
O excesso de sobrecarga psíquica que não foi simbolizada, seja pela falha da cartografia do corpo, seja pela insuficiência de representações termina irrompendo em momentos em que essa ação dispersante é interrompida - daí ser comum o ataque ocorrer em locais fechados ou em condições em que o paciente tem de parar de agir;
O trabalho com eles segue e seguiu um processo de costura de sua própria história, de estimulação para que o próprio paciente lhe dê sentido, incorporando essas experiências vividas ou revividas em terapia a seu próprio self. Desconfortáveis e muitas vezes reclamando cada vez que o processo sai de seu controle o paciente nos convida a uma dança em que ele entra e sai de seu mundo objetivo e subjetivo, compartilhando com o terapeuta o que antes era somente o espaço íntimo. A experiência de ser acompanhado sem intrusão organiza a possibilidade de compartilhamento do terceiro espaço.
A vida, a experiência. Não se dá nem na realidade nem na fantasia, mas naquele espaço potencial entre as duas, que não coincide, com a psique do indivíduo. tensões dialéticas de unidade e separação, de internalidade e externalidade
É bom descobrir que essa possibilidade organiza-o de forma a que possa "agüentar" toda a intensidade de vida que possui, sem que para isso se aprisionar na neurose.
Como eu disse, sou um Gestalt Terapeuta em terra estrangeira, mas vou me apropriar de uma frase de Winnicott: "Estou estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião" e a psicólogos, diria eu.
Espero ter conseguido "falar línguas estranhas", brincar com meus pensamentos organizando-os sob novos significantes, às vezes próximos, mas às vezes escorregadios.

Olho minha recriação mágica,
   gostei dela ...
      abro a janela e a deixo ganhar o mundo ...
         quem sabe ela pousa em outro espaço
            e brota em todo seu potencial...

Pierre Ferraz
contato@penseemterapia.psc.br
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